Já está beirando o clichê dizermos que estamos vivendo tempos desafiadores na atualidade. A pandemia global que nos atingiu vem remodelando a maneira como fazemos as coisas. De fato, uma série de paradigmas, sobre como vivemos, trabalhamos, nos relacionamos, produzimos, vem dando lugar a uma série de outros. E, neste contexto, nós professores tivemos que migrar nossas atividades para o ambiente on-line. A grande maioria de nós foi lançado às tecnologias e plataformas digitais de maneira abrupta, sem qualquer treinamento e/ou programa de desenvolvimento. Também, muitos de nós sequer temos/tínhamos as habilidades e competências para operar neste lugar. Mas, sendo a vida como ela, e sem grandes tempos de reflexão, fomos à luta.

O atual cenário da educação e a transição do presencial para o on-line

Para minha sorte, tive a oportunidade de ser parte de um movimento de educação híbrida que antecedeu a chegada do Covid-19 e que facilitou demais meu trabalho de migração para o 100% on-line. Além de conteudista, tenho dado aulas de Yoga também no modelo 100% on-line. Não que eu seja um professor nativo do on-line, mas também não me sentia desguarnecido neste novo espaço das videoconferências. Agora, mais do que nunca, isolados em nossas residências temos que “dar” aula. Junto a mim, milhares de colegas, foram para o ambiente digital. Estimamos que no grupo onde trabalho tenhamos 140 mil alunos conectados à quase 4 mil docentes.

Os desafios, para além da nossa falta de capacitação técnica do professor, logo aparecem: carência de equipamentos (hardwares e softwares), dos mais simples ao mais complexos, falta de infraestrutura de internet, nossas e dos alunos, falta de diretrizes pedagógicas e metodológicas básicas. Os desafios são inúmeros e não há espaço aqui para enumerar e debater um a um. Decidi assim, voltar meu olhar para um assunto que me chama particular atenção e vem da minha formação acadêmica: a (in)segurança da informação. As ameaças vão além do coronavírus, neste caso.

Pelos meus privilégios docentes e profissionais, afinal sou diretor de inovação de um grande grupo educacional, eu tinha/tenho à minha disposição não só os equipamentos (computador, Modem 4G, Câmera, Microfone e Fone de ouvidos, uma boa internet) como uma série de plataformas de videoconferências on-line. Pelo meu ofício, tenho acesso a todas elas, ao menos as mais comuns (Whereby, Zoom, Microsoft Teams, Skype, Hangouts) e pude experimentar quase todas neste período de quarentena. Não cabe a mim e nem é o papel deste breve artigo fazer recomendações ou manifestar predileções sobre ferramentas, mas trazer luz aos desafios gerais que temos observado ao transmitir nossas aulas on-line, especialmente no que diz respeito à segurança.

Como manter uma sala de aula on-line segura

O primeiro entendimento que devemos ter é que nenhum, absolutamente nenhum sistema é 100% seguro contra invasões. Recentemente, foram publicados artigos sobre as falhas na ferramenta zoom. No limite, qualquer sistema pode ser quebrado e hackeado, ainda que alguns sejam mais fáceis e outros mais difíceis. Não nos iludamos. Geralmente, existem falhas na estrutura ou arquitetura dos sistemas. Outras tantas vezes, são os nossos comportamentos (usuários) que favorecem as falhas e dão chances a entrada desses hackers. A segurança então teria dois responsáveis, o provedor do software ou hardware, e o usuário.

Para além disso, existem políticas governamentais que permitem ou proíbem o tráfego e/ou uso de informações dos usuários em alguns casos. Discuti este tema em minha tese de doutorado em 2014. Os EUA por exemplo, prezam mais pela segurança nacional que pelas garantias irrestritas da privacidade de informação das pessoas. Já os europeus prezam mais pela restrição de informações de seus cidadãos. Nesta disputa, o que está em jogo é o que muitos dizem ser o “petróleo” do contemporâneo, que são os dados. Os dados das pessoas e do conjunto delas auxiliam empresas e governos a tomar decisões. Deste modo, quem tem dados, tem muito. As videoconferências geram muitos dados valiosos sobre o comportamento dos usuários e por isto são também alvos de ações ilícitas.

Não precisa ter medo

Neste contexto, o que nós professores podemos fazer para garantir um pouco mais de segurança? A maioria das ferramentas permite criar as conferências com senhas. Assim, enviar links e senhas aos alunos, um pouco antes do início das atividades minimiza a “viralização” da sua aula. Não compartilhar informações em redes sociais abertas, também ajuda. Em contas corporativas e controladas por um gestor externo é mais difícil usar este expediente, mas isto pode ser combinado entre o professor e a escola, por exemplo. Existe ainda possibilidade de restringir o acesso a somente usuários logados ou previamente cadastrados. Ademais, o professor tem a opção de bloquear câmeras e microfones dos alunos o que, se por um lado impede os alunos de “zoarem” nas aulas, por outro lado restringe a interação, que é a razão de ser da educação. O professor ficará dando aula para um monte de quadradinhos com nomes escritos, que não faz a meu ver muito sentido. Nisto vamos acabar ampliando nossa sensação de isolamento.

Um outro entendimento que gostaria de trazer é que ao estarmos off-line ou presencialmente não necessariamente a interação está garantida e nem que o on-line não o permita. Há como criar interações e trabalhos em grupo mesmo no on-line, mas isto depende talvez menos da tecnologia e mais de um método. Os alunos podem discutir algo em grupos menores, usando o whatsapp por exemplo, enquanto o professor atua pelo zoom com a turma toda. Mas devemos lembrar que esta é uma escolha de cada país, estado, escola. Não há modelo pronto e solução igual.

O fato é que estamos em crise e em crise tomamos medidas urgentes. Eu acredito no caminho do meio, ou seja, há vantagens e desvantagens de cada modo de ensino. Como professor, venho tentando explorar o melhor de cada “mundo”. Depois de 5 semanas dando aula já encontrei minha forma. O que digo para meus colegas é que neste momento devemos ter uma mente mais flexível, permitindo mais experimentações e criatividade. Também, devemos nos exigir menos. Nossa performance não é igual e não deve ser. As telas nos trazem desafios, estarmos em casa com nossas famílias, fazendo absolutamente tudo e ainda trabalhando. Tenham paciência consigo mesmo e com seus estudantes. Muitos de nós estão “trocando o pneu com o carro andando”. Não estaremos 100% certos do que estamos fazendo e nem 100% seguros no ambiente on-line, assim como não estamos 100% seguros no presencial também.

O que podemos fazer para minorar o impacto é nos capacitar aos poucos. Convido a todos para conhecer mais sobre técnicas de aulas on-line com nossos webinários no nosso canal do YouTube.

Autor: Rafael Ávila